January 27th, 2012

 

Em casa do diabo

[a propósito de uma rima imperfeita]

 

Armas um exército de fantasmas,

gastas dinheiro inútil em mercúrio,

lâminas e fósforo, ligas mil plasmas

de que se ouve o áspero murmúrio

 

da ameaça, o gesto rude, a euforia

invasora: misturas veneno na rede

de água, dinamitas o lapso da ironia,

invades, torpe, exangue de sede,

 

o próprio território, o teu labirinto,

a alma déspota que não reconheces,

confundes a saída à vista, absinto,

ricina, cianeto, gritos, preces:

 

em si próprio o mal confundido,

toma-se o diabo por vítima e canta.

Muda o olhar de direcção: fica o ruído,

a memória ferida, limpa, estatelada.

 

Manuel Fernando Gonçalves

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January 21st, 2012

Pássaro provocado

January 19th, 2012

De um dos pássaros antigos tirei

a cor, selei-lhe o bico, quem cantou

não tinha voz capaz, vontade,

a anilha de origem: troca a máscara,

 

volta para a gaiola mental, gritei

e ele, de olho cínico, enrolou

a cabeça, catou, com força, a grade

e estragou-me o canto à cara.

 

Rude gesto, esse onde ardes,

bem podes suster o ardiloso sono:

vou deixar aberta a luz das tardes

 

de inverno, fazer-te aprender:

amo o meu absurdo dono

e abrir-te a porta que eu quiser:

 

és tu o pássaro mudo.

 

Manuel Fernando Gonçalves

AO CONTRÁRIO

January 1st, 2012

Pode fazer-se tudo ao contrário.
Não prevenir a perturbação do ritmo
cardíaco, nada disso, aumentá-lo.
Mais do que querer, exigir
um gráfico de espirais irregulares
que tão depressa estão em cima
como em baixo. Depois, aguardar.
Numa cadeira, com um livro
nas mãos, ou então com as pernas
cheias de desporto, aguardar
que vá diminuindo lentamente
a terceira corda do baixo
na força de um eco ao contrário.

D day…

December 28th, 2011

© mra 2011

ESTÍMULO

December 19th, 2011

O meu problema é que deixo barriga
no meio do cigarro, anos nisto
e deixo barriga no meio do cigarro.
A minha pequena palavra no meio
da grandiosidade esplêndida
e densa da verdadeira floresta
da poesia, eu a passar, e ao passar,
a deixar cacos, às vezes flores, sim,
mas de papel, ou de plástico, ou já
murchas, ou das que duram menos
de meio dia, ou entrelaçadas
no fumo. Na ideia brilhante, escrita
no fumo. A perder-se de vista
num epitáfio que alguém decore
num meio dia e se esqueça noutro
meio dia. Lume e frio nos dedos,
é o sangue a iluminar o gosto,
a sair para o centro, antecipação
da acção, gozo por dentro do gozo
comum, o amor afinal é um estímulo
como outra coisa qualquer.

DE CERTEZA

December 16th, 2011

Quando paro à porta da antiga fábrica
onde meu avô trabalhou. Risca. Quando
a fábrica onde meu avô trabalhou
surge de repente aos meus olhos,
sem eu a ter procurado, e. Risca.
Passam de repente nos meus olhos
muitas imagens, uma delas é a porta
da fábrica onde meu avô trabalhou.
Ali me deu uma vez dez escudos para.
Risca. É um poema num café. Dele
faz parte uma mesa de café e um café.
Depois olho pela janela do café
e não está lá fábrica nenhuma,
não está lá porta nenhuma, e também
sinceramente não tenho bem
a certeza de ser eu que estou aqui.
Mas o meu avô estava lá de certeza.

PING-PONG

December 11th, 2011

Um dia deixei um poema a meio
para ir jogar ping-pong. A minha equipa
precisava de mim. Era um poema
que ia mudar completamente a literatura
portuguesa, para não dizer universal.
Quando regressei , bloqueei, não
consegui passar dali. E a literatura
portuguesa, para não dizer universal,
não mudou. Desde então tenho passado
a vida a jogar ping-pong. De cá
para lá. De lá para cá. De cá para lá.

November 16th, 2011

Transporto as lágrimas na mão,
ando com elas por toda a parte:
não quero que se vejam: não se vêem
nem em Novembro nem em mês nenhum.

Também quanto a isso,
nada, nunca saberei: na minha
opinião deve mesmo ser
de urna fechada, mínimo
para que não confundam
o beijo ao morto: partiu,
não disse mais nada, foi
pregar para outra freguesia,
com o que em nós, omisso,
cada um para seu lado, tinha
mesmo, a sério, de obedecer.
Nem flores, sinais que não animo,
nem preces onde se afundam
os medos, nem o que sentiu
a memória onde ela mais dói,
sequer a persistente astenia.
Isso sim, diazepan cinquenta,
coisa leve de inseguros,
um último aceno, ridículo,
terás, certamente, achado
ridículo, achou toda a gente,
disfarçaram: não tens frio,
ficas lá em casa, com o teu filho,
só nós vemos para isto?
Nasci neste mês, faço sessenta,
recolho, livre, os prematuros
avisos de colapso, neste capítulo
já pensado no livro, inacabado,
de que te não falei. Fica assente
que nele correrá, bravo, o teu rio,
por ele correrão as nuvens, o trilho
de acaso, as paredes de xisto.
Combinado. Vou acabar com isto,
levanto um pouco de terra, lês
se quiseres. É tudo tão diferente!
Era, bem sabes, muito fácil agora
a dor, calçar as botas de borracha,
subir a serra, ver o mundo, ensinar,
com gestos bruscos, como se ama
e se despreza um peixe, uma árvore,
o mundo inteiro que já não tens e vês?
Não sei se estás a perceber: nem sequer
dizes vou ali, volto já e ninguém mais
te vê? O cão ouve-me chegar e quer
alegria e festas. Mas para onde é que vais?

Manuel Fernando Gonçalves

A hole in a country soul…

November 11th, 2011

© mra 2011

NADA

November 4th, 2011

Vamos, o trajecto é curto,
daqui a nada é já o tempo morto.
Não servirão as culpas
nem servirá a negação das culpas.

Fumo intranquilo não é fumo,
porque é de lenha verde,
com o peso da água, mamilo
de frio, só de frio e mais nada.

Vida jamais em fio de prumo,
apenas céu azul e mais nada.
Ontem e amanhã é mesmo parecido,
o dia de hoje é só um trilho.

Tapar os olhos não tem perdão,
assobiar para o lado também não.
Ser nada e não fazer mal. Não ter
qualquer tipo de importância.

DO CAOS

October 17th, 2011

Não era o meu Deus, era o dele, e por isso
escrevi Jah o proteja, eu que digo meu Deus
quando vejo uma coisa de que não estou
à espera, eu que digo ai meu Deus quando
um disparate sai da tua boca, eu que estou
aqui sem Deus, sem Jah, só com o Deus
que Pessoa disse ser o Deus dos que não têm
Deus, entrego-me à voz total da esfera
redonda, olho para as minhas mãos
e parecem-me garras, mas felpudas,
de brinquedo, nem um pequeno lume
nas pontas, um pequeno lume que incendiasse
esta porcaria toda, não, apenas um leve
toque de dedos, em tempos seguraram
uma caneta e neles ficou, suspenso, o tique,
o gesto, a imagem que fotografa
a ausência e assim acrescenta esquecimento
à velocidade do caos. Do caos. Do caos.

COMMERCIUM

October 4th, 2011

Devagarinho junto ao mar o carro
vai, correm pessoas, o mundo parece
bom. Parece, parece.

Abranda ainda mais, fazem-lhe
sinais de luzes, com os vidros corridos
não ouves chamarem-te filho da puta.

Não era a minha mãe
que queriam insultar, é evidente.
O melhor é parar mesmo,
voltar a gostar do pôr-do-sol.

Mal parei pôs-se um grande
vento. Que me levou pelo ar
e me fez aterrar na única rocha
digna desse nome em pleno mar.

Media Is A Virus

September 21st, 2011

Where to go?

September 6th, 2011

© mra 2011