T.S.ELIOT e PORTISHEAD! The Love Song of J. Alfred Prufrock
3 . Julho . 2008 - 17:58Enviado por Helder Moura Pereira
Enviado por Helder Moura Pereira
Levantou-se de manhã cedo
para ir trabalhar, de repente,
rodeado de carros prateados,
pôs-se a chorar e o trânsito parou.
Ninguém sabia porquê, ele
próprio também não sabia.
O carro não arrancava e ele,
parado no trânsito, continuava
a chorar. Quanta buzinadela,
santo deus, os homens
que distribuíam jornais
gratuitos aproximaram-se
para tentar ajudar. Que é lá
isso, amigo, olhe que é preciso
andar para a frente. Vá, chegue-se
lá à frente. Era um terramoto
à sua frente, a estrada abria-se
em duas à sua frente, se se
chegasse à frente suicidar-se-ia.
E ficou ali pregado até ao ponto
em que já o consideravam
louco, havia alguns que se riam,
outros que lançavam piadas.
Enviado por Helder Moura Pereira
Às 4h e 20 da manhã de 21 de Dezembro de 1919, juntamente com outros 247 deportados, Emma Goldman e Alexander Berkman foram discretamente embarcados no S.S. Buford, um navio em decomposição da Armada americana, já fora de serviço, forçados a enveredar numa agitada e dramática viagem, sob rigorosa vigilância armada, a caminho da Rússia. No cais, uma silhueta sinistra diluía-se na luz difusa da madrugada: John Edgar Hoover fiscalizava pessoalmente a coroação do seu persistente trabalho. Consta que, já a bordo, Emma Goldman lhe teria gritado - «Não se deve esperar de ninguém seja o que for que vá para além das suas capacidades.»
Clara Queiroz, Se Não Puder Dançar Esta Não É A Minha Revolução / Aspectos da Vida de Emma Goldman
Enviado por Helder Moura Pereira
Fale, amigo, diga o que tem
a dizer. E disse: espanta-me
a prosa dos dias, dilacera-me
a descrição dos dias fatídicos
e das suas paisagens. Para dizer
isso mais valia estar calado, nada
terá a dizer sobre a função social
do coração, já farto de ser usado
como metáfora do amor?
Ou sobre coisas assim inovadoras
como o sentimento de culpa,
a acidez de um desgosto vital,
a necessidade de ter dinheiro
para gastar? Esperava muito mais
de si, confesso, embora, vendo
bem, o que me atrai mais seja
o seu silêncio. Pelo que
não há problema, pode a poesia
tornar-se linguagem de poder,
podem dizer cobras e lagartos
acerca da nossa estupidez congénita
e insinuar dúvidas sobre a nossa
estimada relação. Nada abalará
o gosto com que nos sentamos
num fim de tarde a falar
absolutamente de nada.
Enviado por Helder Moura Pereira
Azar o teu
Olha! Que sujeito me saíste
do que pratico mas não penso,
melodia curta, não canto
e adivinho, suspensa no gesto,
uma espécie de fala: gasto
as palavras em círculos, pedras
lançadas à água com desprezo
hábil, treinado, bem sabes
que a minha luz é sinistra,
não durmo para outro lado.
Pensava: custa-me dizer isto:
e gritava, ainda assim, na linha
limite de um abismo. Simbólico,
esperavas o quê? Se me tiver
a mão no pescoço, há-de correr
um cão malhado atrás, hei-de ter
vénias confiantes, quem sabe
sangue no chão e um sorriso
seguro do que quer. Pratico
actividades pouco seguras,
muito banais e inscritas: sapatos
de verniz, braguilha aberta, um
olhar capaz de trepidar tanto
que nem ao teu fulgor reage.
Olha! Quem és tu para saberes
como corro suado, elegante,
nesta pista paralela ao tempo?
Branco, pensamento escovado,
ansioso, meio cavalo e uma mão
insinuante. Paralelo à pista:
ágil com morte.
Manuel Fernando Gonçalves
Enviado por Helder Moura Pereira
Enviado por Pedro Sendas Pereira