January 27th, 2012
Em casa do diabo
[a propósito de uma rima imperfeita]
Armas um exército de fantasmas,
gastas dinheiro inútil em mercúrio,
lâminas e fósforo, ligas mil plasmas
de que se ouve o áspero murmúrio
da ameaça, o gesto rude, a euforia
invasora: misturas veneno na rede
de água, dinamitas o lapso da ironia,
invades, torpe, exangue de sede,
o próprio território, o teu labirinto,
a alma déspota que não reconheces,
confundes a saída à vista, absinto,
ricina, cianeto, gritos, preces:
em si próprio o mal confundido,
toma-se o diabo por vítima e canta.
Muda o olhar de direcção: fica o ruído,
a memória ferida, limpa, estatelada.
Manuel Fernando Gonçalves




