Tempos modernos
March 9th, 2010Uma biblioteca escolar tem, em média,
cento e vinte e dois metros quadrados.
Um apartamento em Campo de Ourique tem,
em média, noventa metros quadrados.
A cabana de um pescador, em qualquer sítio, tem,
em média, quinze passos para cada lado.
O abrigo de um sem abrigo tem, por alto,
um metro e cinquenta, mais coisa menos
do que um sonho ou um arrepio desprevenido.
Para que serve a merda dos livros se continuam
a escrever, a cantar, a pintar, a construir
merdas medonhas, inomináveis, coisas
de um mau gosto fundamental, capaz
de envergonhar os senhores engenheiros,
advogados, doutores de todas as artes, quando
se distraem e olham, por fim, o avesso
manhoso das coisas que mandaram
fazer? Mas quem tem vergonha, quem
se lembra, ainda, de William Morris?
Ou de artes simples, como acariciar
as nódoas negras dos sonhos benevolentes?
Ó info-gestores, uma sala de cento
e vinte e dois metros quadrados bem pode
acolher uma família inteira de masturbadores.
Nunca conseguiram sair debaixo das ovelhas:
o que fazem, de livros na mão, deslumbrados
a tocar os ângulos seráficos do design de massas?
Netos envergonhados de ninguém.
Manuel Fernando Gonçalves
AUSÊNCIA
March 2nd, 2010Não estás, mais uma vez não estás.
Uma aflição os minutos da tua demora.
As minhas mãos passam de quentes a frias
e no coração um outro frio se agita.
Não há dúvida, o amor é exagero.
Beijo-te logo à entrada da porta
como se fosse verdade ir acabar o mundo
antes de acabarmos nós.
Eu sinto nervosismo em vez de paz
e por isso uma vez fui-me embora.
Mas o amor é como todos os dias,
vai dormir ou morre e depois ressuscita.
É bom programa evitar o desespero,
fazer do silêncio uma coisa morta.
Para com um único gesto profundo,
sem palavras te imaginar a voz.
Estudos da Teresa
March 1st, 2010Never enough sound…
February 14th, 2010POEMA AO MEU AMIGO MORTO
February 14th, 2010Morreu-me entre as duas mãos o pássaro
vadio, era o meu peixe azul num aquário,
o fanatismo de ser de um clube, o meu ídolo
com as suas pequenas patas de barro.
Visitava-me muitas vezes, cheguei a crer
que era mais do que um, mas não, era
sempre o mesmo, o meu pássaro com asas
de radioso negro, talvez não fosse negro,
talvez fosse às riscas, mas o bico, ah,
o bico, esse era amarelo torrado e nunca
há-de haver outro como ele. Não lhe dei
de comer, porque ele não precisava, ele
desenvencilhava-se sozinho, acompanhou-me
na velhice dos dois sem nada exigir e agora
veio morrer às minhas mãos o meu amigo.
UMA COISA QUALQUER
February 13th, 2010Falaste-me muito baixo, quase ao ouvido,
era uma espécie de segredo político
em período de ditadura, como se houvesse
a possibilidade de um polícia à paisana
dizer que nos vira a conspirar contra
uma coisa qualquer. Era apenas a tua maneira
de falar de coisas comuns como o amor
ou a morte, ao mesmo tempo nos perturbava
a ideia de uma coisa qualquer contra
a qual seria preciso estar, uma aproximação
entre a realidade e a interpretação
da realidade, os próprios termos do amor
invertidos, os papéis da morte também.
Mas dentro de nós o canto, resistência
perene, persiste, ainda que despedaçado
e rouco, ainda que patético pela inocência
de não saber nomear uma coisa qualquer.
Caçadora de sombras…
February 2nd, 2010Waiting…
January 26th, 2010SEIS JOANINHAS
January 18th, 2010Das seis joaninhas que viajaram
entre Gdynia e Klaipeda só duas
se salvaram. Apanhou-as um vendaval
de água doce. Debatiam-se, de costas.
Duas espernearam até morrer, duas
tombaram vencidas por uma tromba
de água, gota redonda em cheio
sobre o ventre preto. Das quatro
que morreram e depois desapareceram
na água salgada uma era muito estúpida
(num grupo é raro não haver gente
estúpida que pode até chegar a pôr
em perigo toda a gente): a dois
milímetros da zona seca, voltou
para trás, caiu de costas, debateu-se
(quinze minutos pareceram quinze
horas) e morreu. Assisti a tudo
sem poder ajudar. Já que não se pode
modificar a realidade, ao menos
se descreva o que se vê, diz Fassbinder.
Se não estou em erro é Fassbinder.









