I
Puxo lume ao meu cigarro vivo,
na linguagem de outros o meu cigarro
está morto e sou eu que o avivo
quando vou com outros que fumam
a seguir à refeição, por fora da janela
da casa, porque é proibido fumar
lá dentro, as crianças, a posição
intransigente, tudo se organiza.
Compreende-se, treme a voz, e a mão
também, em sinais de afirmação
pelo correcto, aquilo em que a gente
acredita – e nós intrusos, tão perto
do amor infinito, reprodutor,
esperançoso, mesmo se a esperança
já não é a última coisa a morrer.
II
Não me atrevo, aqui, a fumar mais
do que um cigarro de marca, não
desfarei o cigarro de marca para outra
forma, um pouco tosca, porque feita
por mim, nem lhe acrescento nada
que possa prejudicar a minha saúde.
Isso fica para depois, no engano
do golpe regular, sonolento, capaz
de aforismos ainda mais pessimistas
que os de Cioran, e ditos a rir,
imagine-se, com total convicção.
Deus me perdoe pelo que vou
dizer. Fala, homem, diz lá. É
indecente fustigar cada fala
de um diálogo com um furor
químico, indolente, negro.
III
Um balão que rebentou por descuido
de um malabarista de cigarro aceso
na mão. Uma criança berrou
e outra criança, ali ao lado, não
deu por nada. E continuam a voar
muitos balões de muitas cores.
Realmente não consigo reduzir
só para dez, tem de ser abruptamente,
mas não pode ser muito bem pensado,
porque se eu me ponho a pensar
ainda chego à conclusão de que vai
tudo dar ao mesmo. Isto tudo
até parece que alguém, ou algo,
ou alguma coisa, um ser superior
que destruiu um ser inferior, atira
uns papéis à sorte e uns têm azar,
os outros ficam. Esta conversa merece
indiscutivelmente um cigarro.
Fumemos, pois.